O grito de Munch

“A minha tarefa é estudar a alma, o que equivale dizer estudar-me a mim mesmo... na minha arte tentarei explicar a minha vida e o seu significado”, escreveu um dia o pintor norueguês Edvard Munch no seu Diário de Um Poeta Louco. Munch nasceu na Noruega a 12 de Dezembro de 1963 e foi considerado “o pintor da angústia, do homem moderno, da solidão que este sente nas cidades, do amor fracassado e da morte”. Edvard Munch perdeu a mãe muito cedo, com cinco anos, vítima de tuberculose e, quatro anos mais tarde, morre a sua irmã com a mesma doença. A partir daqui o pintor inicia uma relação com a morte que o vai obcecar para o resto da vida.

De fato, quem nunca se deixou impressionar pelo mais célebre quadro de Munch, “O Grito”, talvez nunca se tenha deixado impressionar pela vida. Este é um quadro muito intenso, que reflecte a angústia deste pintor e a sua visão de existência humana. Munch descreveu a experiência que o levou a pintar esta obra em 1883, com apenas vinte anos, decorria o ano de 1883. “Caminhava eu com dois amigos pela estrada, então o sol pôs-se; de repente, o céu tornou-se vermelho como o sangue. Parei, apoiei-me no muro, inexplicavelmente cansado. Línguas de fogo e sangue estendiam-se sobre o fiorde preto-azulado. Os meus amigos continuaram a andar, enquanto eu ficava para trás tremendo de medo e senti o grito enorme, infinito da natureza”.
De certo modo, Munch concentrou nesta obra toda a angústia humana perante o mistério insondável da morte. Pelo menos esta é a imagem mental, a imagem criada, que muitas vezes induz nos seus admiradores. A morte é o maior mistério da vida e é algo a que, nós humanos, estamos, inevitavelmente, destinados. É-nos imposta à nascença e não há nada que possamos fazer para a evitar. No quadro de Munch esta impotência do ser humano face á sua condição de ser mortal sente-se através das cores incandescentes, vivas, tumultuosas que provocam no espectador uma espécie de tontura emocional. Por isso muitos temem Munch, o pintor do medo. Porque muitos temem o confronto com a sua própria mortalidade.
Segundo Anna Carola Kraube, “neste quadro as cores e as formas aumentam a força de expressão do motivo”. O Sol desaparece e o eco do grito sacode o céu e a terra . Munch utiliza um pincel nervoso e colorido que passa rapidamente de tons mórbidos a cores incandescentes. Esta técnica sugere ao espectador a inquietação e a angústia que assolava o criador durante a concepção desta obra. Kraube descreveu “O Grito” como “o desfalecimento que o homem sentia dentro de uma realidade cada vez mais complexa e confusa”. O homem contemporâneo vive dentro desta espiral, muitas vezes sem se aperceber deste facto.
Em toda a sua obra, Munch parece aplicar a si um dos mandamentos do seu amigo e poeta Hans Jaeger que disse um dia que “cada um deve escrever a sua própria vida”. Munch fez mais do que isso. Pintou a vida de todos nós.

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Catadora acha documentos de Pagu no lixo

São Paulo - A catadora de papel Selma Morgana Sarti encontrou no lixo, no bairro do Butantã, em São Paulo, documentos originais e fotos da escritora, jornalista e agitadora cultural Patrícia Galvão, a Pagu (1910-1962), musa do modernismo brasileiro e que foi companheira de Oswald de Andrade. São, em sua maioria, documentos pessoais da escritora, como uma carteira de trabalho original, duas fotos e dois retratos, além de documentos e fotos de seu último marido, o jornalista e crítico Geraldo Ferraz.

O material foi doado pela catadora de papel para o Arquivo Edgard Leuenroth, da Unicamp. Segundo o Jornal da Unicamp, Selma (apesar de só ter cursado até o 4.º ano primário) reconheceu a importância do material e procurou uma amiga, aluna do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, para saber o que fazer com os documentos. Ela considerou o achado "emocionante" e declarou: "A ignorância deixa a gente passar um monte de coisas importantes. Você já imaginou quantos catadores existem e quantas coisas foram destruídas?". O material, que é considerado "importante e complementar" por especialistas da universidade, vai ajudar a instituição a criar a Coleção Patrícia Galvão.

O acervo pertenceu ao filho de Pagu, Geraldo Galvão Ferraz, que vive atualmente nos Estados Unidos. Em litígio com a ex-mulher, ele viu coisas pessoais e valiosas serem atiradas no lixo. Por e-mail, Ferraz falou à reportagem do Estado. "O material era meu, sim. Fiquei muito triste ao saber que foi achado no lixo; primeiro pelo lado sentimental, já que se trata de recordações dos meus pais. Além disso, tenho alguns projetos de livros, inclusive em andamento, sobre eles. Infelizmente, no caso, estou em Nova York e dispuseram dessas coisas à minha revelia. Felizmente esses itens foram achados por alguém que, de forma elogiável conduziu-os até a Unicamp, para que a tão maltratada memória nacional não os perdesse", afirmou.

Jotabê Medeiros

 

:: Postado por Sunshine às 16h01
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